Rúbrica Semanal do CAVI

O apoio de assistência pessoal, experiências escritas na primeira pessoa.”

O impacto do serviço de assistência pessoal na vida dos nossos destinatários tem sido bastante significativo, nomeadamente, o poder viver sozinho, cumprir um horário de trabalho, aceder a serviços, participar em atividades de cultura e lazer na comunidade, maior conforto e condições de higiene da habitação e do vestuário e maior frequência em terapias de reabilitação.

Todas estas alterações potenciaram sobretudo a alteração do Projeto de Vida dos destinatários, traçado agora com maior autodeterminação.

Esta rúbrica, tem assim como objetivo, a partilha de reflexões elaboradas pelos destinatários sobre o apoio de assistência pessoal e todas as alterações que o mesmo possibilitou nas suas vidas.


O Rogério teve um acidente de aviação que o deixou paraplégico. No início do projeto não demonstrou grande abertura mas acabou por aderir, neste momento não imagina que o futuro seja o fim do projeto. O destinatário tem o apoio de assistência pessoal desde junho de 2019 e usufrui atualmente de 25 horas de apoio.


O meu nome é Rogério Valentim, tenho 45 anos.

Há 10 anos sofri um acidente de viação, no qual fiquei paraplégico.

Tomei conhecimento através do CPCB do projeto piloto de Apoio à Vida Independente, logo, logo, não estava com grande abertura para aderir, é sempre alguém estranho que entra na minha vida, nas rotinas e na vida familiar! E com algum receio que aderi.

Em boa hora tomei esta decisão de aceitar, com a vinda da assistente pessoal, tudo mudou na minha vida, tanto a nível físico como psicológico, deu-me mais motivações, para sair da cama e de casa, acompanha-me sempre que preciso, motiva-me a ajuda a exercitar a parte física.

Boas conversas e desabafos, que faz bem sempre ter conversas fora do seio familiar, além de ser uma mais valia no dia a dia de uma casa.

Não quero imaginar que o futuro seja o fim do projeto, que tanto nos ajudou, só quem está em situação igual ou semelhante, sabe a importância de nos sentirmos mais independentes!

Rogério Paulo Pereira Valentim

A destinatária Ana Lázaro tem apoio de assistência pessoal desde junho de 2019.

O apoio que ao início aceitou com alguma desconfiança, hoje afirma que não vive sem ele. Começou com 20h de assistência pessoal, mas logo percebeu que na verdade queria fazer mais coisas na sua vida. A alteração do seu projeto de vida levou a uma alteração do seu PIAP e aumento de 20h para 30h de assistência pessoal. 

Estas alterações estão claramente espelhadas na sua reflexão.


 

Com o apoio de uma Assistente Pessoal, hoje, eu posso:

- Decidir a organização, higiene e decoração da minha casa;

- Ir às compras quando e onde quero, comprar tudo o que necessito;

- Ir às consultas médicas sem ter de me preocupar se alguém estará disponível para me acompanhar;

- Fazer as minhas caminhadas diárias;

- Escolher e decidir os espetáculos culturais e recreativos a que quero assistir;

- Decidir o que me apetece comer, tenho quem me ajude diariamente, a confecionar as minhas refeições;

O Projeto do Modelo de Apoio à Vida Independente proporciona-me tudo o que já referi, e muito mais.

Em suma, dá-me o poder de planear o que fazer e onde quero ir cada dia, com a liberdade de executar qualquer tarefa a que me proponho.

Uma Assistente Pessoal é uma pessoa imprescindível, que diariamente contribui para a minha liberdade e qualidade de vida.

Infinitamente grata a este grandioso e maravilhoso Projeto.

Ana José Romeiro Lázaro

 

Breve Introdução

Proponho-me fazer uma reflexão sobre o tema da assistência pessoal e da vida independente porque, estando nós num projeto piloto, faz-me sentido mostrar que impacto teve este projeto na minha vida.

Como é que eu tive conhecimento deste projeto?

 

Há muitos anos que faço parte da Assembleia de Representantes da Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) e, ao longo do tempo estas questões da vida independente foram sendo discutidas entre nós. Lembro-me de trocar ideias com a atual Secretária de estado da Inclusão para as Pessoas com Deficiência sobre o tema.

Posso até dizer, portanto, que assisti ao nascimento deste projeto.

Como é que eu tive conhecimento do Centro de Apoio à Vida Independente (CAVI) de Beja?

Acompanhei a criação dos CAVI da ACAPO mas, como esta associação não tem delegações no Alentejo, nunca me preocupei em saber se poderia beneficiar de assistência pessoal e nem procurei informar-me se Beja teria algum CAVI. Foram as técnicas, que me conheciam por parcerias entre o agrupamento de escolas onde trabalho e o Centro de Paralisia Cerebral de Beja que me contactaram para me falar deste projeto, incentivando-me a realizar a minha inscrição.

Confesso que o fiz apenas para não defraudar as expectativas das técnicas, porque continuava a não acreditar que não pudesse beneficiar de assistência pessoal por não ter deficiência motora.

Para mim, já era importante que uma instituição pudesse ter registos das pessoas com deficiência existentes na região.

Posteriormente, recebi uma carta a comunicar que tinha sido selecionada. Fiquei muito contente, porque me estava a ser dada a oportunidade de participar num projeto em que eu acreditava e, mesmo residindo no interior, estava em igualdade de circunstâncias com os meus amigos de Lisboa e Porto que também iam ter assistência pessoal.

Seguiu-se a elaboração do Plano de Assistência Pessoal (PIAP) e a seleção da assistente. Eu fui ouvida em todo o processo e não tive a interferência da família.

Resido em Beja há seis anos e a assistência pessoal permitiu-me conhecer melhor a cidade.

Passei a ir a espaços onde nunca tinha ido. Destaco aqui: lojas, esteticistas e a biblioteca municipal. Consequentemente, pude conhecer mais pessoas e realizar mais atividades, como por exemplo, compras ou requisitar livros na biblioteca, de forma mais autónoma.

Graças a este serviço posso saber o estado da roupa antes de a vestir sem correr o risco andar com peças sujas e ter acesso à leitura de documentos sem estar à espera do fim de semana para pedir a um familiar que o faça.

Nas últimas eleições fui votar autonomamente com a assistente pessoal e, pela primeira vez, não foi preciso solicitar a colaboração de um familiar. Essa autonomia só foi possível porque existe a matriz em Braille e a assistência pessoal.

No capítulo dos novos conhecimentos quero destacar a possibilidade de conhecer outras pessoas com deficiência, inclusive pessoas cegas. Com algumas tenho trocado ideias fora do CAVI porque, afinal mesmo entre pessoas com deficiências diferentes há dificuldades comuns.

Refiro outro aspeto curioso: o meu último aniversário calhou num dia de semana em que nenhum familiar poderia estar presente. A minha assistente pessoal sugeriu irmos jantar fora.

Note-se que ela se disponibilizou a deixar a sua família para eu não jantar sozinha no meu dia de anos.

Sei que tenho a sorte de ter uma família que não interfere na minha relação com a assistente, limitando-se apenas a apresentar sugestões de atividades a realizar, o que tem contribuído para o êxito da minha experiência.

Conclusão

Acompanhei com interesse o nascimento deste projeto sem acreditar muito que poderia beneficiar dele. Hoje em dia, já tenho muita dificuldade em me imaginar sem assistência pessoal e espero que isto não seja apenas um projeto piloto, mas se transforme numa realidade consistente.

Ana Medeiros

 

 

 

A Cristina, o Miguel e o Sérgio Líforo, são três jovens, residentes em Vila Verde de Ficalho, que sofrem de Ataxia de Friedreich, doença degenerativa que provoca alterações progressivas no sistema nervoso e por consequência conduz à deficiência motora e dificuldades na coordenação de movimentos.

Beneficiam do serviço de assistência pessoal desde junho de 2019, contando com o apoio de duas assistentes pessoais, que de acordo com as suas reflexões têm contribuído para alterações significativas nas suas vidas.



" Olá, sou a Cristina, tenho 27 anos e vivo numa pequena aldeia, Vila Verde de Ficalho, no Alentejo. Eu e os meus irmãos sofremos de Ataxia de Friedreich, uma doença rara progressiva que afeta fisicamente todo o corpo. A nossa casa não está totalmente adaptada e não temos muitas posses, por isso temos também uma página solidária de angariação de fundos.
Antes de termos assistência pessoal através do CAVI de Beja, a nossa vida era monótona, não podíamos sair da nossa terra pois não há acessibilidades nenhumas. Vivemos com os nossos pais, que já se sentiam sobrecarregados a tratar de nós sozinhos, não podiam sair de casa porque não temos acesso até à cozinha para fazermos a nossa alimentação, a minha mãe não trabalha para poder estar connosco e dependíamos da ajuda e boa vontade de terceiros para a realização de simples tarefas como a nossa higiene pessoal.
Concorremos ao CAVI, fomos aceites e hoje temos duas assistentes pessoais. Não foi fácil de início, até porque todos nós temos idades próximas, e é um pouco constrangedor termos ajuda de alguém com a nossa idade. Foi com a ajuda das assistentes pessoais que eu organizei feiras e brindes, que eu consegui comprar um veículo adaptado para todos. Neste e em muitos outros assuntos as assistentes são a minha voz, quando precisamos deslocar-nos a um local que não está adaptado, transformam-se nos nossos pés e mãos. Como se elas fossem eu. São também as assistentes que nos levam á fisioterapia e nos acompanham nas consultas. Mas é uma mais valia, com a sua ajuda nós organizamos alguns eventos de angariação de fundos, os nossos pais já podem ter um pouco mais de liberdade, nós também podemos sair, fazer piqueniques e passeamos. Este apoio é imprescindível para nós, uma vez que nos dá muita independência e seria um retorno à nossa dependência se nos retirassem este apoio."



"Sou o Miguel, tenho 21 anos, vivo em Vila Verde de Ficalho, no Alentejo. A vinda das assistentes pessoais para a nossa casa foi muito importante, pois desde esse momento que nos tornamos mais independentes, o que até aqui não acontecia pois dependíamos dos nossos pais para tudo. Elas levaram-me a Beja para irmos passear e almoçar fora a um restaurante com acessibilidades. Graças a elas conseguíssemos começar a receber a Pensão Social de Invalidez, pois elas trataram de todos os documentos e entregaram nos na Segurança Social, os meus pais tinham dificuldade em preenche los. Desde que elas para cá vieram que eu já não caiu tantas vezes, pois elas conseguiram arranjar estratégias para eu fazer as transferências da cama para a cadeira de rodas, no banho.. Logo nos primeiros dias fizeram mudanças no meu quarto e ficamos com muito mais espaço, tudo mais organizado e sem barreiras para poder andar com a cadeira mais à vontade. No dia dos meus anos elas fizeram nos uma festa surpresa no espaço da Junta de Freguesia, com muitas pessoas que nos ajudam através da página que temos. Foi um dia em grande, com muitas pessoas que gostam de nós, se não fossem elas nada disto era possível, pensaram em tudo. Também foi graças a elas que hoje temos Fisioterapia, Terapia da Fala e Terapia Ocupacional numa clínica. Se este apoio acabar vou voltar a ser completamente dependente dos meus pais outra vez."



"Olá, sou o Sérgio Liforo e vivo em Vila Verde de Ficalho com os meus pais e dois irmãos. Antes de ter as assistentes pessoais cá em casa eu era dependente da minha mãe para realizar algumas das minhas tarefas diárias. Mas, ainda tomava banho e vestia-me sozinho apesar de cair algumas vezes. Agora são elas que me ajudam na preparação do banho e durante todo o processo, principalmente nas transferências.
Quando elas vieram para cá eu ainda andava na escola em Serpa e ia todos os dias de táxi com o meu irmão, mas depois concluímos o 12º ano. A vinda delas cá para casa foi muito importante para mim pois elas ajudaram me a tratar dos papéis da pensão social de invalidez e a tratar de um problema nos meus pés que já se arrastava à muito tempo e nunca consegui tratar no centro de saúde onde ia. Elas levaram-me a um podologista privado para uma consulta e desde ai que comecei a ser seguido todas as semanas na minha casa e consegui resolver o meu problema depois de ser operado.

Elas ajudam nos a realizar todas as tarefas cá em casa. Fazem-nos muito bem, muito felizes, gostamos muito delas, desde que para cá vieram muita coisa mudou nas nossas vidas. Vamos passear em Ficalho e até mesmo para fora, já foram connosco ao Oceanário a Lisboa, passamos um dia muito divertido.
Elas também nos ajudam na recolha de tampinhas e na sua entrega numa empresa, onde nós depois podemos comprar produtos de apoio que precisamos.
Elas são fundamentais nas nossas vidas, sem elas já nada faz sentido.
Muito Obrigado!"